Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (DLIII)

Sezim, 7 de junho de 2041

No mês de setembro de 2003, no anfiteatro de uma faculdade da Universidade do Porto, uma sessão pública servia para lembrar aos políticos que o projeto Fazer a Ponte fora criado, exclusivamente, “com razões do foro educativo” (sic). Entretanto, em carta dirigida ao Ministro da Educação e ao Presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso, a comunidade da Ponte avisava:

“Há um tempo para apelar e outro para exigir. E nós já estamos quase a ultrapassar o limiar do desespero. Chegou, portanto, a hora de exigir. Não exigimos do país e das autoridades o que a outras escolas tem sido negado. Exigimos, apenas, que sejam honrados os compromissos livremente assumidos pela administração e a reposição de uma situação que permita a esta Escola continuar a educar os seus alunos com a qualidade que as suas famílias, muito legitimamente, reclamam”.

O que estaria na origem dessa reivindicação? Nada mais do que mais uma atitude prepotente de políticos oportunistas, em vésperas de eleições. 

O relatório de avaliação externa encomendado pelo ministério recomendara que o projeto se expandisse e que novas instalações fossem construídas, para albergar o projeto, em Vila das Aves. As “autoridades” ignoraram as conclusões do relatório, descumpriram compromissos. Em carta dirigida ao Ministro, os pais da Escola da Ponte reagiram: 

Há mais de três meses que aguardamos uma resposta à exposição que lhe dirigimos. Os nossos filhos, Senhor Ministro, não são carne para canhão. Como escreveu um grande pedagogo brasileiro, amigo e admirador da nossa Escola, quem tolera tudo é porque não se importa com nada”. 

Os pais terminavam a mensagem, dizendo “Que a razão o ilumine!”

A razão do ministro não se “iluminou”. E os professores da Ponte decidiram não aceitar desenvolver o projeto nas condições impostas pelo ministério. Corajosamente, informaram o Senhor Ministro e a Câmara Municipal de que, se até ao final do mês de julho, não dessem sinais inequívocos de que respeitavam as conclusões e as recomendações da avaliação externa, garantindo a continuidade do projeto, não aceitariam quaisquer destacamentos, regressando aos seus lugares de origem. Era Amor e Coragem, em tempos de inevitável confronto, de afirmação de autonomia. 

Numa conferência de imprensa, em que participaram os representantes da comunidade, a Associação de Pais acusava o Ministério de não «honrar os compromissos livremente assumidos» e classificava a decisão de “discricionária e «discriminatória”. Em comunicado, a Associação de Pais denunciava:

“Em vez de premiar a qualidade, o Ministério da Educação asfixia-a. Não acreditamos que o senhor Ministro da Educação queira ficar na história como aquele que extinguiu este projeto. A arrogância e a falta de sensibilidade que continuam a ser evidenciadas pelo Senhor Ministro da Educação” e os seus mais próximos colaboradores leva a pensar que o que o Ministério pretende é mesmo acabar com este projeto. A partir do dia 15, ocuparemos pacificamente as instalações da Escola e não sairemos daqui até que o governo resolva os problemas que criou”.

Era evidente que Ministério e Câmara Municipal se mancomunavam, para destruir o projeto. E, se o não conseguiram, lograram “ilhá-lo”.

No dia da abertura oficial do ano letivo, conforme tinham anunciado, os pais ocuparam a escola «por tempo indeterminado».  O ministério reagiu. Cedeu.

À distância de quarenta anos, sinto saudades de extraordinários pais e professores, de um tempo de legítima indignação. Me orgulho de ter feito parte de uma comunidade que não se resignava.

 

Por: José Pacheco

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