Santo António da Charneca, 9 de setembro de 2041

Prometi falar-vos do Manifesto de 2013 e aqui cumpro o prometido. Ele começava por denunciar os péssimos resultados obtidos pela escola da ensinagem, que funcionava à revelia do disposto na Constituição, na Lei de Bases e em outros dispositivos legais.

A informação estava acessível aos jovens, como nunca estivera. Porém, as escolas mantinham-se presas a formas arcaicas de transmissão de informação. Os educandos não dispunham de tempo de aprender, porque estavam envolvidos numa competição por boas notas.

No frontal de anônimos coletivos, alunos enfileirados, em círculo, em semicírculo, ou outra modalidade de grupos estáticos, eram impedidos de se expressar, de produzir conhecimento e de o compartilhar. Urgia que educadores e gestores entendessem que escola era, também lugar e tempo de criação de vínculos afetivos. Como cultivar amorosidade no atribulado cotidiano das salas de aula e nas agendas lotadas dos professores?

Alertados pelo caos provocado por políticos irresponsáveis, educadores conscientes preparavam caminhos para uma sociedade solidária, justa, sustentável. Apontavam diretrizes para uma Educação do século XXI: o efetivo cumprimento da lei; passar de gestão hierarquizada para práticas colegiadas, de autonomia, envolvendo a participação das comunidades; operar transformações nas estruturas de comunicação, intensificando a colaboração entre instituições e agentes educativos; praticar educação integral em tempo integral; ressignificar o papel da instituição escolar, para que agisse como locus de construção de conhecimento; garantir condições de gestão democrática; concretizar a efetiva diversificação das aprendizagens, tendo por referência uma política de direitos humanos, que a todos garantisse as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal; organizar um debate público fraterno e fundamentado, auxiliando a família e a sociedade a discutir vivências; trocar a competição pela colaboração; considerar a escola como espaço-tempo de relações sociais, reafirmando que a inclusão escolar era também social.

Era como que um arrojado programa de conversão da Escola aquele que o Manifesto de 2013 propunha. O Manifesto de 2021 recuperaria esse rol de intenções. E eu me questionava sobre o modo de as concretizar.

Em 1932, já se escrevera que “na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobrelevava em importância e gravidade ao da Educação. Nem mesmo os de caráter econômico lhe podiam disputar a primazia nos planos de reconstrução nacional”.

Quase um século decorrido, muitos dos principais problemas apontados pelo Manifesto, como a equidade no acesso e na qualidade do ensino, estavam longe de ser resolvidos. A “libertação espiritual e econômica do professor, mediante uma formação e remuneração equivalentes, que lhe permitissem manter a dignidade indispensável aos educadores” ainda continuava comprometida por uma formação de professores deformadora e por um estatuto social depreciado. A profissão envelhecia. Pouca gente desejava ser professor.

Em 2021, o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” completava 89 anos. Tal como os manifestos seguintes, o documento assinado por alguns dos maiores intelectuais da época assustava pela sua atualidade, mostrava que a discussão sobre a Educação não era recente e que quase nenhum impacto tivera nas práticas escolares e educacionais.

Subscrito, também, por eminentes educadores, o manifesto de 2021 corria o risco de sofrer idêntico destino.

 

Por: José Pacheco