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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXLIV)

Torres Novas, 24 de maio de 2043

Numa tarde de maio de há vinte, pais, autarcas e outros membros da comunidade se reuniram na Biblioteca de Torres Novas, para preparar o futuro dos seus filhos e cidadãos. Nesse mesmo dia, Rúbia Lóssio publicou um artigo, que tinha por título “A subversiva educação nas comunidades de aprendizagem”.

Com a devida vénia e gratidão, não resisto a transcrever alguns excertos. Rúbia sugeria que perguntássemos a uma criança o que ela desejava ser e quais seriam as suas realizações em benefício da comunidade e da sociedade.

“(…) iremos encontrar explicações na educação. O amigo Zé, do extraordinário projeto Escola da Ponte, lembra que “a educação não é para amadores”, que está no seu livro Inovar é um Compromisso Ético com a Educação. 

Com uma proposta transformadora baseada nas relações cotidianas com as relações curriculares pela autonomia, responsabilidade e solidariedade surgem as comunidades de aprendizagem. 

As comunidades de aprendizagem criam condições de convivialidades unindo ciência, arte e relações cotidianas, a partir dos dispositivos pedagógicos que surgem mediante o aparecimento das necessidades de convivialidades na reconstrução das relações sociais.

A comunidade de aprendizagem é a cena, a dinâmica, a sinergia entre ações, contemplações e projetos. O que alimenta uma comunidade de aprendizagem é o prazer nas convivialidades pela dimensão da investigação. Seria então, os acontecimentos do dia a dia com a vontade da descoberta por algo de interessante interesse o desafio das Comunidades de Aprendizagem? 

Essas comunidades de aprendizagem incentivam as metodologias na perspectiva da criatividade. Seus parâmetros estão na família, costumes, cultura, identidade favorecido pelo encontro. Assim, Zigmunt Bauman denomina comunidade como aconchegante coletivo.

Há de se considerar que, o que alimenta as comunidades de aprendizagem é a intersecção entre ciência, literatura e a vontade de aprender existente na comunidade. Gabriel García Marquez diz que o maior feitiço que existe na vida é a vontade. E, nas comunidades de aprendizagem não falta vontade de aprender. 

A Escola, está perdida diante de tantas novidades e inovações tecnológicas, com isso precisamos inovar com o compromisso ético na educação. Deixar o modelo autoritário, patriarcal, ditado pela indústria dos livros didáticos para uma postura de construção de novos livros realizados pela Comunidades de Aprendizagem. O modo como as crianças percebem o mundo não faz conexão com os livros didáticos.

Precisamos trazer de volta os seres humanos. Trazer a poesia, a fé, a curiosidade, a solidariedade, a autonomia, a responsabilidade e a ternura. A partir da Cidadania do Afeto construiremos espaços de educação de sucesso. A partir das virtudes, de uma matriz axiológica de valores poderemos trilhar um novo tempo nas Comunidades de Aprendizagem, como diz o professor Pacheco. Não poderemos continuar a construir uma educação pela autonegação. Singularidade e alegria devem pautar as Comunidades de Aprendizagem.

“Olhemos com ternura nossos alunos como seres humanos. Dignos de realizações. 

Para começar poderemos criar um memorial de cada aluno, com seus gostos, suas músicas, poesias, livros, filmes, lugares, cores, jogos, brincadeiras, onde sua matrícula não seja apenas um número. Não viemos para este mundo só para competir, viemos para mostrar nossas realizações em benefício da coletividade. Que cada aluno seja compreendido pela formosura de ser um humano e que a educação seja sempre subversiva.”

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXLIII)

Montemor-o-Velho, 23 de maio de 2043

Netos queridos,

Achei esse cartaz, quando andava vasculhando o fundo do baú das velharias. Essa “Conversa” decorreu. Já tinha percorrido o país, “conversando” com educadores, que viriam a modificar o (triste) panorama educacional desse tempo. Pressentia um forte sentimento de autonomia em muitos educadores, cujos projetos de comunidade ia acompanhando. Investi na criação de uma equipe, que tomasse nas suas mãos os destinos dos muitos projetos, que foram surgindo.

A minha amiga Tina fazia parte dessa extraordinária equipe. Assim se manifestava no velho Instagram:

“Se as escolas são pessoas e o sistema educacional são pessoas, quem são os arrumadores de desculpas?

Como detectar um bom arrumador de desculpas, para manter a educação no instrucionismo?
Ele deseja fervorosamente essa transformação em si mesmo?

Ele deseja fervorosamente essa transformação para seus próprios filhos?

Ele deseja fervorosamente essa transformação para seus próprios estudantes?

O sistema educacional é viciado em arrumar excelentes desculpas para se manter agarrado ao convencional.… 

“Sempre foi assim. Foi assim comigo e deu certo. A… a diretora não deixa. Sou obrigada a fazer assim. E eu fiz a minha parte. E essa criança não aprende. Eu fiz o que me orientaram…”

Esta lista pode ser infinita.

Para transitar do Paradigma da Instrução, para o Paradigma da Aprendizagem e Comunicação, e trazer o aprender para o século XXI, é preciso reconhecer que, fazer o que sempre foi feito, não alcançará resultados diferentes.
Arrumar desculpas, não vai tirar a educação da Zona de Conforto e essa mudança precisa começar por quem quer, por mim e por você, nunca pelo outro.
Sair da zona de conforto, não será um movimento aconchegante, cômodo, agradável, suave, leve. Por isso, continuo à procura de educadores com garra, e como disse Tião Rocha: persistentes, insistentes e resistentes.”

Se as palavras da minha amiga Tina, já por si, tocavam o centro de gravidade do profissional de desenvolvimento humano e poderiam ser suficientes para que os professores refletissem e decidissem resolver um problema de natureza moral, acrescentaria algo que apontasse para o domínio da ética.

Há uns quarenta anos, o amigo António Nóvoa escrevia:

“Como conseguir que a educação responda aos anseios e aos desejos de cada um sem que, ao mesmo tempo, renuncie à integração de todos numa cultura partilhada? 

O regresso a dinâmicas associativas, desenvolvidas no quadro de uma narrativa pública da educação, permitirá evitar as tendências burocráticas e corporativas, sem cair numa visão fragmentada dos alunos como clientes e das escolas como serviço privado.

É urgente reforçar um espírito associativo, que entre nós foi sistematicamente asfixiado, para que uma concepção nova da educação como espaço público se concretize no quadro de práticas de autonomia das instituições escolares.

Como conseguir que as famílias e as comunidades sintam que a escola lhes pertence?”

Talvez na esteira das considerações do amigo António, nos idos de vinte e três, algo novo acontecia. Quando, pela enésima vez, percorri o meu país da Educação, no Canto dos Piscos, nas Sementes de Lys, na Manuel da Maia, na Compasso e em outros lugares onde uma nova Humanidade ganhava contornos em iniciativas de uma nova Escola sosseguei os meus voluntariosos ímpetos. Já havia diretores sensíveis e educadores decididos a fazer o que eu, em vão, tentara, ao longo de mais de meio século.

O Simão e a Flor já nasceriam no tempo da Educação. Pais e professores o tinham preparado.

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXLII)

Casal dos Ledos, 22 de maio de 2043

Calhou de estar envolvido em formação, num tempo em que acreditava que se poderia formar professores. Decorria o ano de 2007, se não me falha a memória. No intervalo da ação de formação, saí para arejar e comprar livros. Quando vasculhava as estantes de um sebo, deparei com um título comum de um livro, que nada tinha de vulgar: “A Escola Secundária Moderna”. 

O mestre Lauro tinha escrito um tratado, onde vertera um pouco da sua sabedoria. Procurei outros títulos do autor e apenas encontrei “A Escola para a Comunidade”. 

Europeu etnocêntrico, eu estava crente de que tivessem sido os anglo-saxônicos e os catalães os primeiros a escrever sobre comunidades de aprendizagem. Puro engano! No sul da América, trinta anos antes da construção teórica do Ramon, Lauro apontava caminhos para a transformação da escola em nodo de comunidade de aprendizagem: 

A expressão escola de comunidade procura significar o desenquistamento isolacionista da escola tradicional. Escola, no futuro, será um centro comunitário. Não se reduzirá a um lugar fixo murado”. 

Voltei ao local do encontro de formação, feliz pelo encontro com a obra de mais um ilustre Mestre brasileiro. Perguntei a mais de uma centena de professores, ali presente, se alguém sabia do paradeiro do Lauro. Ninguém sabia. Nem sequer tinham ouvido falar de tal nome.

No final do dia, após a saída dos formandos, uma senhora chegou para limpar o salão, varrer, apanhar e jogar copos plásticos e restos de guardanapos no balde do lixo. Aproximou-se e perguntou:

“O senhor doutor perguntou pelo professor Lauro? Eu sei onde ele mora. É no Recreio dos Bandeirantes”.

Aquela senhora o conhecia e indicou-me o endereço da casa, que visitei no dia seguinte. Mantive com o Mestre uma saborosa manhã de conversa. Dali fomos para a “Chave do Tamanho”, onde conheci a Beta, sua filha, e reconheci Piaget, nos mínimos detalhes da vida daquela escola. O bate-papo a três se estendeu por toda a tarde. E o amigo Lauro reiterava a crítica da escola da sala de aula: 

Encontramos escolas como verdadeiros quistos sociais, sem nenhuma relação real com o meio; estas escolas fechadas são elementos perniciosos para o meio. Museus, bibliotecas etc., estando à disposição de todos, deve a escola ensinar o povo a utilizar-se desses instrumentos de cultura (…)  aí se inicia uma escola; todos os serviços escolares, toda a estrutura administrativa, toda a legislação escolar, toda a burocracia resultam à posteriori deste fenômeno primário; cada membro da comunidade, para além da responsabilidade pessoal e social, tem compromisso com as novas gerações.”

Em 2012, a Escola do Projeto Âncora quis homenagear um dos maiores educadores vivos. O Lauro estava muito doente, sem condições de se deslocar do Rio a Cotia. A Beta, sua filha o representou, numa festa organizada pelas crianças. No final, os alunos do Âncora entregaram à Beta umas “cartinhas para o amigo Lauro”. 

Recordo uma manhã de trabalho no Âncora, em janeiro de 2013, quando a Internet nos trouxe a notícia do falecimento do Mestre. Voltei ao Rio e à escola do Lauro, para saber como poderia ajudar a Beta a continuar a obra do seu pai. Era grande a consternação. E era imensa a minha indignação, por saber de uma morte anônima. Nem uma notícia de jornal, nem uma homenagem póstuma a um dos maiores educadores do século XX e XX!

Desde o escolanovismo, o anonimato e o esquecimento era a sina de educadores que contestavam o sistema de ensinagem. 

Quanto professores portugueses teriam lido, ou ouvido falar de Faria de Vasconcelos, de Adolfo Lima, de Irene Lisboa…?

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXLI)

Nascentes de Luz, 21 de maio de 2043

Não será, certamente, leviano que eu afirme, à Monsieur de La Palisse, que educador é aquele que educa. É aquele (ou aquela) que exerce uma práxis coerente e, enquanto fundamenta a prática com o quanto baste de teoria, contribui para a melhoria da educação. 

Nos idos de vinte, muitos desses educadores havia. Não colhiam o devido reconhecimento pelo conhecimento que produziam, pois esse conhecimento não era “publicado” nem “divulgado” nos meios acadêmicos. Os seus projetos soçobravam por carecerem de sustentabilidade financeira. Ou sobreviviam à míngua de restos de financiamento e do que sobra de opulentos gastos com congressos e quejandos. 

Teoricistas recebiam os louros devidos ao afã dos chamados “práticos”. Pilhavam esses projetos e deles se apropriavam, para os vender em ações de formação, ou os verter em teoricistas teses. O farisaísmo campeava no reino da educação e abútricas empresas lucravam com a situação.

Em seminários e reuniões afins, plateias compostas por professores aclamavam falastrões que lhes ensinavam como deveriam agir em sala de aula. Porém, se esses falastrões fossem colocados em sala de aula, não saberiam realizar aquilo que diziam que os professores deveriam fazer.

Nesse tempo, as práticas efetivas eram contraditórias com o teor dos projetos político-pedagógicos. A ensinagem não contemplava a aprendizagem da vida. Retirava as crianças do mundo, da realidade, confinando-as em prédios com salas de aula fechadas, por vezes rodeadas de grades. 

A escola ensimesmada, que ainda tínhamos era uma forma “modernizada” de socialização do saber, era monológica, monocultural, sem incorporação de diálogo com os saberes circulantes. Mesmo essa escola poderia constituir-se em locus de criação de comunidades, se a identidade difusa que as caracterizava, desse lugar a interações com significado e viesse a contribuir para um desenvolvimento humano sustentável. 

Buber dizia existir uma constante renovação entre o real e a representação do real, que fazia com que o elo fundante de uma comunidade estivesse para além do campo dos dogmas e das regras. Buber falava-nos de uma lei intrínseca da vida, de um processo criativo, em permanente fase instituinte, que respeitava as tensões entre subjetividades. Talvez, então, pudéssemos concluir que a escola com projeto (e que cumprisse o seu projeto…) pudesse ser espaço e tempo de construção de comunidades. 

Um projeto humano sempre foi um ato coletivo e em permanente fase instituinte. A escola poderia ser um lugar, entre outros, de emergência de comunidades de aprendizagem, agindo como um dos nodos de uma rede social física e virtual, possibilitando a partilha de conhecimento real ou virtual, redesenhando mapas e trajetos da aprendizagem. Escolas são pessoas. E aquilo que faz das pessoas comunidades são os valores, as necessidades, os sonhos e até mesmo os problemas que elas partilham.

A transformação ou a reconfiguração das práticas, pressupunha a substituição do frontal passivo, centrado no professor, por um relacional ativo centrado na rede. Nesse frontal ativo sem centro (ou com o centro numa relação de vínculo) se desenvolvia um currículo subjetivo harmonizado com um currículo de comunidade. 

O currículo era uma construção social. Através da participação na construção do currículo, a pessoa exercitava a vida em sociedade. E, se a sociedade decidisse fechar escolas?

Para evitar que escolas com poucos alunos fossem extintas, extinguindo aldeias, criamos círculos de aprendizagem.

Deles vos falarei. 

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXL)

Pereira, 20 de maio de 2043

Nunca esqueci a minha passagem pelas nascentes de Luz, pelo lugar, onde o silêncio era escutado, onde o canto dos pássaros fazia sentido nos humanos ouvidos, onde rosas floriam namorando as uvas, como vedes pela imagem que junto a esta cartinha.

A Margarida ensinou-me a Pedagogia do Enxerto, técnicas antigas e um método de propagação de plantas. A sua aplicação demandava certos cuidados, para que as mudas funcionassem e não houvesse desperdício de recursos ou perdas de energia.

Nos idos de vinte, ainda havia professores que aprendiam, que se apercebiam da sua incompletude e sabiam que o ser humano estava em permanente estado de projeto. Seres humanos talentosos com projetos pessoais e sociais, agindo à margem dos cemitérios de talentos das salas de aula dessa altura. E educadores investindo na reelaboração da sua cultura pessoal e profissional. 

Não sendo responsáveis por aquilo que deles fora feito, assumiam responsabilidade responsáveis por aquilo que fizessem com aquilo que havia sido feito deles (foi o Sartre quem o dissera, embora por outras palavras).

No périplo da Primavera de vinte e três, embora politiqueiros e burocratas conspirassem na sombra, um “movimento” de regeneração tomava forma concreta e me fazia recordar um naco de freiriana prosa, pelo Paulo inscrita no livro “Professora, sim; tia, não”:

“Como esperar de uma administração de manifesta opção autoritária, que considere, na sua política educacional, a autonomia das escolas? Que considere a participação real dos e das que fazem a escola, na medida em que esta se vá tornando uma casa da comunidade? Como esperar de uma administração autoritária, numa secretaria qualquer, que governe através de colegiados? 

No Brasil, como em Portugal, havia quem ainda não tivesse compreendido que existia diferença entre ditadura e democracia, entre autoridade e autoritarismo no exercício do poder. Se já havia diretores de agrupamento extraordinários, também havia aqueles que se mantinham ordinários, inviabilizando projetos de mudança com tiques autoritários:

“Aqui, quem manda sou eu!”

Como gostava de ver “o copo meio cheio”, já procurara e encontrara administrações e secretarias, que já admitiam ser incontornável considerar a possibilidade de gestão autónoma das escolas. E que a autonomia era ato relacional resultante da reelaboração da cultura pessoal e profissional dos educadores. 

Conheci um professor insatisfeito com o seu desempenho. Ele se perguntava:

“Se eu faço um planejamento perfeito das minhas aulas e preparo belos materiais, por que será que alguns alunos meus reprovam? 

Se eu dou aulas tão bem dadas, por que razão há alunos que não aprendem?”

Um koan (iluminação súbita) se apresentou incontornável. E concluiu: 

“Se eu dou aula e há alunos que não aprendem, esses alunos não aprendem porque eu dou aula.”

Uma profunda perturbação o invadiu, o chão fugiu-lhe debaixo dos pés. Não poderia continuar a dar aula, mas ele só sabia… dar aula. 

Não se permitia manter-se instalado num ritual que condenava muitos jovens à ignorância. Mas, haveria outros modos de ser professor? Outros modos de ensinar? De que maneira todos poderiam aprender? 

Procurou e encontrou professores, outros professores “vivos”, que ousavam fazer as mesmas perguntas e não cediam ao fácil. Com eles se envolveu num projeto de mudança. Juntos, conceberam protótipos de comunidade de aprendizagem, espaços e tempos de uma nova construção social onde, verdadeiramente, se aprendia. 

Com uma tomada de decisão ética, um novo tempo da Educação se anunciava.

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXXXIX)

Moita da Roda, 18 de maio de 2043

Acabo de encontrar notícias de um projeto, que acompanhei, vai para vinte anos. No e-mail (não sei se vos lembrais daquela espécie de carta abreviada, que não carecia de envelope e selo), os educadores da Moita da Roda, da Carreira e da lameira davam notícia de mais uma reunião com a sua comunidade. 

O encontro foi coordenado pelo Michael, morador e pai de dois alunos. As professoras escutaram elogios e críticas, esclareceram dúvidas, fizeram propostas. No final do encontro, sumos, chá e uns copos de tinto (conforme o gosto) acompanharam o saborear de uns docinhos confeccionados pelas crianças e de cerejas do Fundão e fatias de presunto (conforme o gosto). 

Enviei à Adélia e à Andreia o velho email achado no fundo do baú das velharias, onde repousam vestígios de vida vivida, como recordação de tempos idos, feitos de muitas dificuldades e de algumas alegrias. 

Naquele tempo de reinícios, o ranço da velha escola penetrara bem fundo na cultura do lugar. Escolas foram fechadas, aldeias foram despovoadas, assassinadas, viram partir os seus jovens para a cidade grande e os velhos irem morrer num “lar”, na sede do município. 

Em sentido inverso, diretores de agrupamento tentavam manter vivas comunidades em risco de extinção. A instituição Escola ganhava novos significados. Aderia a práticas permaculturais, inventariava tecnologias e saberes populares, retomava tradições…

Na casa de um jovem aluno, os educadores encontraram uma avó, fabricando sabão com restos de óleo. Pais se organizaram numa cooperativa de produção e consumo alimentar resultando na criação de emprego, em geração de renda, sustentabilidade. 

Também eram identificados lugares com potencial educativo: quadras, igrejas, padarias, praças, casas, centros culturais, bibliotecas comunitárias. O mapeamento ia mais fundo, atingia uma segunda camada, com recurso a uma inteligência artificial, que contribuía para o bem-estar de todos e para a humanização do ato de aprender e ensinar.

Na Primavera de vinte e três, o vosso avô andava por terras de Dom Dinis e Dona Isabel. Abro um parêntesis sem parêntesis: 

Dizia a minha amiga Andreia que se deveria inverter a ordem dos nomes e colocar a Isabel como protagonista dos feitos atribuídos ao marido. Creio que a Andreia tinha razão. Aliás, a partir daquela idade em que podemos dizer tudo o que nos via na alma, sem pensar nas consequências, eu afirmava que por detrás de uma grande mulher havia sempre… um homem.

Mas, voltando à vaca fria… Nem só em terras leirienses acontecia renovação. Do Minho ao Algarve (ou deveria ser ao contrário?), diretores de uma nova geração, educadores éticos e comunidades revividas encetavam práticas fundadas numa nova visão de mundo. 

Quando me despedi da margarida e da Eduarda, nas Nascentes de Luz, eu levava comigo a certeza de que, quando chegasse a primavera seguinte e ali voltasse para a celebrar, já iria assistir a profundas transformações sociais.

Muitos anos antes do surgimento dos círculos de aprendizagem e dos protótipos de comunidade de aprendizagem, um sociólogo chamado Pierre escrevera uns livrinhos, nos quais demonstrava que a Escola produzia e reproduzia desigualdades. E que, perversamente, ocultava os seus critérios sob o discurso do mérito individual. 

Muitos educadores encontram nas suas obras a inspiração, para inverter o fatalismo da reprodução escolar e social. E um jovem centenário de nome Edgar dizia-nos que tudo o que vivia deveria regenerar-se incessantemente: o sol, o ser vivo, a biosfera, a sociedade, a cultura… o amor.

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXXXVIII)

Vidigal, 19 de maio de 2043

A esperança não é última a morrer, como se diz por aí. A esperança nunca morre. Pude comprová-lo na passagem pelas Sementes de Lys. A minha amiga Ana me concedeu o privilégio de conhecer pais e professores decididos a reivindicar direitos. Nesse encontro, conheci a Vanda, escritora de belos livros para a infância, como aquele que dá pelo título de “A que sabe o Amor?” e onde escreveu “vamos experimentar a vida com um novo olhar, com um novo sabor”.

Na Primavera de vinte e três, experimentávamos a vida com um novo olhar, víamos surgir projetos concebidos por educadores, que não se consideravam funcionários de um ministério e se assumiam cocriadores de comunidades. 

Não contribuíam para a dissolução de relações familiares e sociais, pois o seu múnus profissional não incluía a guarda de crianças em guetos.. Consideravam a escola como espaço público aberto, vinculado à cultura, à vida, espaço de convivência, onde os jovens aprendiam a reinvenção da fraternidade. Uma escola que ajudasse os jovens a ver a sua comunidade como coisa sua, se sentissem pertença, adquirissem identidade local, pois, como diria o Nietzsche, a primeira tarefa da educação era ensinar a ver. 

Consideravam a educação como pré-condição de desenvolvimento, de justiça social, de distribuição de renda, da reconstrução de um país. E o ato de educar como processo em que o conviver com o outro transformava, em todo o tempo e de maneira recíproca, como diria o Maturana.

A escola não deveria visitar a comunidade, porque ninguém visita a sua casa; mora nela. Nem precisaria de levar a escola para a comunidade, dado que se constituíra num nodo de uma rede chamada “comunidade”. As associações de moradores (e as associações de pais), os líderes locais, os representantes do poder público deveriam ser considerados, não como objetos de intervenção, ou apenas convidados a ir à escola, mas como sujeitos, autores de mudança.

Viria a acontecer uma efetiva aprendizagem e transformação social, traduzida na melhoria das condições da qualidade de vida dos membros da comunidade, quando a comunidade participasse, quer da elaboração de projetos, quer na execução das ações a desenvolver, contribuindo para a reformulação das medidas de política educativa, para uma política pública séria. E, se a escola fazia parte integrante da comunidade, faria sentido haver um espaço e tempo escolar separado de um espaço e tempo comunitário? 

Havia quem considerasse uma escola ensimesmada pudesse ser uma comunidade. mas a escola de sala de aula inibia a relação comunicativa, impedia a convivencialidade. 

Um jovem professor enviou-me a seguinte mensagem: 

Professor José, desde o início deste ano, sou vítima de assédio moral e abuso de poder por parte da coordenadora de estabelecimento onde fui colocado. Hoje, estavam os alunos a apresentar os projetos que fizeram, e convidei os pais para participarem no processo. A coordenadora entrou pela sala dentro e perguntou várias vezes às mães o que estavam ali a fazer… Peço ajuda. Há alguma lei que proíbe os pais de entrar na escola e fazerem parte do processo das aprendizagens dos alunos?”

Participei de um encontro de pais e professores, na escola do Vidigal, iniciativa de um diretor de nova geração e contraponto do autoritarismo de uma coordenadora. Nos anos seguintes, essa escola viria a transformar-se num polo de inovação, objeto de estudo e lugar de imersões formativas. Surpreendia a maturidade dos educadores presentes nesse encontro, a consciência de que educar era ato político, exercício de direitos humanos.

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXXXVII)

Marinha Grande, 17 de maio de 2043

E quando voltava de andanças várias, cansado, feliz por ver que ainda havia professores dispostos a recomeçar, a Margarida e a Eduarda juntavam-se à Andreia no saber cuidar, no desvelo com que terminava e começava um novo dia da viagem a Portugal dos idos de vinte e três.

Dediquei particular atenção a dinâmicas sociais e educacionais, que ocorriam na região de Leiria. A minha amiga Andreia havia conseguido organizar um périplo de uma semana pela região. Alguns dedicados diretores articulavam a gestão dos seus agrupamentos com as famílias dos alunos e com o cuidadoso trabalho desenvolvido por uma dedicada vereadora da educação.  

Entre a Batalha, a Marinha Grande, Fátima e Leiria refletimos, como diria a Andreia, “sobre uma escola diferente”. Falamos de “novas construções sociais de aprendizagem e educação”, “aprender em comunidade”, de transformar a educação e reconfigurar a escola”, com associações de pais e comunidades. 

Na Academia Criativa 81, na Batalha, famílias expressaram preocupações e assumiram compromissos. No Teatro Stephens, na Marinha Grande, nos reunimos para criar consensos, estabelecer pactos. 

No final do encontro, a Ana mostrou-me recados dos seus alunos. Antes que a maioria os adultos pudessem antever benefícios, já as crianças os intuíam. Falavam de um visitante de breves momentos como se o conhecem há séculos. A vida e o exemplo de um educador é eterna, e as crianças facilmente se apercebiam disso. Eram crianças ditosas e, talvez por sentir a impossibilidade de abarcar no mesmo amor todos os seres carentes de proteção e compreensão, emocionada, a Ana pediu desculpa por lágrimas derramadas.

A criança grande da Ana sabia que o amor que dedicava aos seus alunos deveria ser contextualizado em estruturas relacionais que capacitavam os seres humanos a definir-se pela contribuição à aprendizagem dos outros. A aprendizagem deveria ser encarada como atividade social, requeria o desenvolvimento de uma comunidade, como diria o Illich.

Diz-nos o dicionário que comunidade é estado do que é comum, paridade, comunhão. Sociologicamente, é um agregado de pessoas, que se caracteriza por acentuada coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos que o constituem. Etimologicamente, tem origem no latim “communĭtas”, qualidade daquilo que é comum. 

Uma comunidade é feita de seres humanos, que partilham algo comum: idioma, costumes, localização geográfica, visão de mundo, valores… Poderá ser um grupo de pessoas, que residam em uma área geográfica determinada, que compartilhem uma cultura ou modo de vida, conscientes do fato de que compartilham e que podem atuar em busca de um objetivo comum. 

A sua coesão poderá ser reforçada, se assentar em laços familiares, compartilhar antecedentes, ou participar de uma mesma tradição histórica.

Poderíamos, pois, concluir que escolas de professores solitários em sala de aula não eram comunidades, eram instituições, tal como um hospital ou uma igreja.

A modernidade nos havia confirmado numa ética individualista. Na gênese da escola da modernidade, o individualismo prevalecera sobre o gregarismo, pelo que profissão de professor se caracterizava pela solidão. 

Nas escolas herdeiras da revolução industrial, quase não existia uma história compartilhada, ou objetivos comuns. Não se contemplava a aprendizagem do mundo e da vida.

Netos queridos, esta carta talvez seja aberta, acredito que alguns professores a possam ler. Aproveito o ensejo para dizer aquilo que já sabeis, mas que, porventura, outros precisem saber. 

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXXXVI)

Jardim da Estrela, 16 de maio de 2043

Era uma vez… um empresário de nome Walter, austríaco de nascimento, brasileiro por adoção, que queria “salvar vidas de jovens”. Dizia ele que sala de aula os matava, e que fazer contraturno de escola era como tentar “enxugar gelo”. 

Pediu-me para “fazer uma escola semelhante à Escola da Ponte”. Com a Edilene, a Claudia e uma extraordinária equipe de educadores, ajudei uma comunidade a libertar-se do assistencialismo e a fundar a Escola do Projeto Âncora. 

Durante alguns anos, o Âncora acolheu muitos educadores em busca de aperfeiçoamento das suas práticas. Porque, se em teoria, tudo é fácil, na prática nem sempre o é. Nada melhor do que realizar uma imersão num projeto que a todos garantia o direito à educação. 

Muitos foram os professores que residiram numa casinha dentro da Escola Âncora e ali colheram ensinamento, convivendo com alunos e professores, Nos fins de tarde, os professores eram recebidos pela Edilene e pela Claudia, que esclareciam dúvidas e os ajudavam a planejar o dia seguinte. Dessas “imersões”, os formandos levavam para as suas escolas ensinamentos, que lhes permitiram melhorar-se.

O Projeto Âncora foi considerado por curadorias internacionais como uma das melhores escolas do século XXI e, efetivamente, conseguiu salvar muitas vidas. 

Muitas mais salvaria, não fora o seu triste fim. Com o fecho do Âncora, a equipe de projeto foi acolhida pelo amigo Arturo, que patrocinou a criação da Escola Aberta de São Paulo, uma ilha de boa qualidade educacional num “país do futuro” que se submetia a uma modernização tardia, numa sociedade da informação caraterizada pela solidão e pelo individualismo. 

As escolas enfeitavam-se de novas tecnologias, sem que fosse afetado o obsoleto modelo de ensinagem, As propostas pedagógicas elaboradas no decurso do século XX e recicladas no início deste século jamais foram vertidas em práticas efetivas. De pouca serventia servia a preocupação com a exclusão social e a crença nas virtudes da psicologização da educação. 

Requintadas propostas pedagógicas continuavam no limbo das teses e legitimavam práticas incoerentes. Os jovens educados nas velhas práticas, ainda que cognominadas de novos rótulos, atormentavam os nossos ouvidos com elevados decibéis de sertanojo, vegetavam entre o bar e a boca de fumo, entre o funk carioca e imbecilidades afins. 

Era-lhes alheia a catástrofe anunciada pelo aumento de quatro graus na temperatura da Terra… E não era somente a velha escola que continuava em crise, era a vida que estava por um fio, com a emergência da chamada “cultura do ódio”. Professores e crianças eram assassinados a sangue frio. E não havia quem acertasse com a origem do mal.

Por essa altura, professores brasileiros ainda rumavam a Portugal, para visitar a Escola da Ponte, desconhecendo que já havia “pontes” para uma nova educação no Brasil. Senti-me no dever de divulgar o excelente projeto da Escola Aberta. e aconselhar que lhe fizessem mais do que uma visita, que nela fizessem uma “imersão” formativa.

Em Mogi das Cruzes, em Maricá, e Caçapava do Sul e em outros lugares onde havia professores éticos, o exemplo frutificou e profundas mudanças foram operadas. Já não seria necessário atravessar o Atlântico, para conhecer o que de melhor por lá se fazia. 

Chegara o tempo de os professores brasileiros deixarem de viajar para a Catalunha e passarem a ir a São Paulo. Era chegado o tempo de os educadores portugueses deixarem de perder tempo e de gastar dinheiro indo à Finlândia, tempo de atravessar o mar, para conhecer a Escola Aberta de São Paulo.

 

Por: José Pacheco

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Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (MCCXXXV)

Olival Basto, 15 de maio de 2043

Neste Ano da Graça de quarenta e três, escrevo para relembrar esquecidas viagens a Portugal. Sobretudo aquela que fiz há vinte anos. Nessa altura, quase perdera a esperança de encontrar quem atendesse à necessidade de se melhorar melhorando a vida das crianças. Mas, por toda a parte, boas surpresas me esperavam.

Chegado às sedes de agrupamentos de escolas, era frequente que o diretor me perguntasse:

“Professor, lembra-se de mim?”

Eu não me lembrava… 

“Fui seu aluno na faculdade.”

Eram professores à volta dos cinquenta anos, em cargos de direção, dispostos a cumprir sonhos de juventude. E eu os ajudava.

Outros diretores e professores, que fiquei a conhecer no decurso dessa viagem, faziam parte de uma nova geração, igualmente decidida a mudar o rumo da educação do seu país.

Quando visitava uma escola, procurava um professor “que ainda não tivesse morrido”, um que fosse já valeria a pena o cansaço de muitas procuras. Na Escola Manuel da Maia, muitos vivos encontrei. E me emocionei com um quase inesperado reencontro com a parte saudável do sistema. 

Na Manuel da Maia, voltava a acreditar nos professores. Ao cabo de meio século, sentia que valera a pena não desistir de procurar. Volvidas sete décadas sinto-me devedor, pois nunca paguei uma dívida de gratidão. 

Sinto-me orgulhoso da amizade e grato pelo acolhimento fraterno entre as casas da Maria e do Vasco, do António e da Elisa, do Luís e da Filipa, da Andreia e do Paulo, e de centenas de amigos e companheiros, que ajudaram a preparar uma vida futura auspiciosa para a Francisca, o Rodrigo, o Vasco e os netos do António.

Aquele não eram mais um momento de reflexão sobre a escola, mas sobre a vida. De rever conceitos, de determinar a origem de chagas sociais, de acabar com as “turmas difíceis” e o “ruído do intervalo”. Já não estava ali para escutar queixas e reclamações do aluno que se comportava mal, ou que tinha faltado o gás…

A Ana, a Magda e os seus alunos prepararam um delicioso bacalhau regado a vinho tinto. Partilhamos o alimento e conspiramos. Da funcionária anónima ao presidente da associação de pais, da empregada da pastelaria ao guarda do portão da escola, já não se tentava sensibilizar ou convencer. Tinha passado mais de meio século e “explicar” a Escola da Ponte a milhares de professores. Dessa vez, ia ao encontro de professores, pais e vizinhos, para FAZER ACONTECER.

Numa manhã de sábado, antes da partida para Leiria, o Auditório Camões acolheu educadores esperançosos e decididos a empreender mudanças, em harmonia com os versos do poeta:

“Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades

E, afora este mudar-se cada dia

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.”

Seres incompletos que somos, estaremos, inevitável e permanentemente, mudando. Se o professor não se regenerasse, se não se interrogasse, se não encontrasse motivo para um projeto de transformação pessoal, se não pesquisasse, o aluno não aprenderia a construir projetos mediados pelo professor, não aprenderia a planejar-se, não aprenderia a elaborar roteiros de pesquisa, nem a produzir e a partilhar conhecimento. Manter-se-ia cativo de um inútil decorar matéria, para colocar em teste, obter uma nota e esquecer. Não aconteceria… uma nova construção social de aprendizagem.

De nada valeria acreditar que se sabia algo, se o saber não fosse partilhado, se não houvesse atribuição de sentido. Se não existisse diálogo, vínculo amoroso entre aprendizes, a aprendizagem dificilmente aconteceria. Uma escola não era um prédio, era relação humana. 

 

Por: José Pacheco

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